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	<title>Dois Dias edições</title>
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	<pubDate>Tue, 26 May 2026 18:37:42 +0000</pubDate>
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		<title>Um fêmeo</title>
				
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		<pubDate>Fri, 17 Dec 2021 14:06:47 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Dois Dias edições</dc:creator>

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	Capa mole, Offset, 104 pp., 300 exemplares.
 
	Um Fêmeo88 coisos de um minutoUm disfarce magnífico
Rubén Sabbadini
textos: Rubén Sabbadinitradução: Marta Moreiraedição: Rui Almeida Paiva e Sofia Gonçalvesdesign: Sofia Gonçalves
	︎ 12€&#38;nbsp; &#38;nbsp;

	
	






	



	Em Um fêmeo (obra vencedora do prémio do Teatro Nacional Cervantes de Buenos Aires, 2020), as ruas enchem-se de grandes plantações, os edifícios cobrem-se de trepadeiras, pelas janelas das casas entram com vigor os ramos e frutos das árvores. A vida começa a decorrer com lentidão, a comida cresce de forma gratuita nas ruas, a cidade é sitiada pela natureza. No entanto, as pessoas não conseguem pôr-se de acordo sobre quem, ou o quê, perpetrou semelhante acto.
Em 88 Coisos de um minuto, assistimos a um vendaval cruzado que nos atinge com imagens, comentários, nano-histórias, desejos brutos, pensamentos obsessivos, fake news, GIFS, movimentos monstruosos, progressões deslocadas. Aqui, definitivamente, observamos um dispositivo dramatúrgico que se aproxima, de um modo vertiginoso, do caos que nos habita.
Em Um disfarce magnífico, conheceremos a história de Aimé, uma mulher que vive num quarto contíguo ao Baile dos Mascarados. Sousa é quem organiza a festa e quem constrói o disfarce de Aimé a seu gosto: roupa, peruca, carteira… e também lhe branqueia a pele.&#38;nbsp;Na sua história vai-se revelando, sobretudo, uma ferida profunda que a violência de um amor deixou cravada na sua estrutura mental. “O amor é dizer que sim a tudo”, diz Aimé enquanto arranja a peruca que Sousa a obriga a usar.

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—
Ele animou-se.


—
Poderia ter sido uma ela também.


—
Neste caso não importa.


—
É verdade.


—
Ultrapassa a questão de género.


— Estava ao alcance
da mão de qualquer um de qualquer sexo.


—
De qualquer um não, de quem quisesse.


—
Isso é verdade.


—
No entanto, nem todos podem e alguns definitivamente não querem.


—
O desejo tem um papel importante.


—
Tu viste-o?


—
Que queres dizer com viste-o?


—
Se imaginaste que algo assim poderia acontecer.


—
Eu imaginei.


—
Eu também.


—
Eu não.







Rubén Sabbadini, Um fêmeo, prémio Teatro Nacional Cervantes de Buenos Aires 2020.
	RUBÉN SABBADINI é um actor, dramaturgo e encenador nascido na Argentina. Neto de imigrantes libaneses, italianos e de uma nativa Guarani, considera-se um actor que escreve. A sua escrita híbrida pode ser lida, tanto como dramaturgia quanto como literatura experimental.Formou-se como actor na E.M.A.D. (Escola Metropolitana de Arte Dramática) e fez o mestrado em Dramaturgia na UNA (Universidade Nacional de las Artes), ambas em Buenos Aires, Argentina.Enquanto dramaturgo e encenador estreou Um Fêmeo, 88 coisos de um minuto, Trópico del Plata, Ruido de hombre fingiendo, No apto, Plaga, Pluscuamperfecto, apresentados em várias salas, tanto do circuito oficial quanto do circuito independente. As suas peças Trópico del Plata, 88 coisos de um minuto e Um fêmeo obtiveram diversos prémios e distinções. Com a sua peça Um fêmeo, ganhou o Concurso Nuestro Teatro organizado pelo Teatro Nacional Cervantes de Buenos Aires. Participou em diversos festivais internacionais de teatro em Espanha, Chile, Equador, Bolívia, Portugal e Argentina. É fundador e director artístico do Vera Vera teatro, espaço independente de Buenos Aires.
	
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		<title>A história de todos e de cada um</title>
				
		<link>https://doisdias.pt/A-historia-de-todos-e-de-cada-um</link>

		<pubDate>Mon, 07 Feb 2022 19:20:03 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Dois Dias edições</dc:creator>

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	Capa mole c/ estampagem a quente, offset, 176 pp.
 
	A história de todos e de cada um:IdaCatorze retratos anónimosA gradual feitura de A Feitura dos Americanos


Gertrude Stein
textos: Gertrude Steintradução: Ricardo Alberty e Luísa Costa Gomesedição: Rui Almeida Paiva e Sofia Gonçalvesdesign: Sofia Gonçalves
	︎esgotado


	
	






	



	










Três textos de Gertrude Stein, reunidos de forma inédita, compõem o livro A história de todos e de cada um: o romance Ida (de 1940, publicado em 1941), os poemas Catorze retratos anónimos (de 1923 e publicado em 1934, na colectânea de primeiros ensaios e retratos literários Portraits and Prayers), o ensaio A gradual feitura de A Feitura dos Americanos (redigido em 1934 para o ciclo de conferências que Stein ministra nos E.U.A. e que viria a ser publicado em Lectures in America, em 1935). 


Durante a sua vida, que é o mesmo que dizer, durante a sua obra, Stein dedicou tanto tempo à exegese quanto à criação. É também a feitura da escrita de Stein que se procura aqui evocar em três tempos e três géneros: o romance, a conferência/ensaio, a poesia. Importou demonstrar como Stein escreveu o que pensou e pensou o que escreveu. Se a sua escrita é um laboratório, esta exprime-se tanto através do pensamento em torno da prática, como do pensamento enquanto possível extensão da prática, ou seja, em Stein, a teoria só se afasta da prática por mera circunstância ou protocolo.


A tudo isto acresce o mote que dá título à presente edição: a ambição de simultaneamente narrar a história de todos e de cada um.«Narrar assim é fazê-lo numa extremidade, num qualquer limite. Ou em abdicação de qualquer interioridade? Uma das possíveis expressões dessa hipótese reside na similitude que há entre alguns passos de Ida (…) e os chamados contos de fadas.»Hugo Pinto Santos, «Gertrude Stein: oráculo e provocação», Ipsilon/Público&#38;nbsp;(22.07.2022)





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E então aconteceu qualquer coisa. 

O que aconteceu foi isto. 

Toda a gente começou a sentir a falta de qualquer coisa e não era de um beijo, aposto a minha vida em como não era de um beijo que toda a gente começou a sentir a falta. E daí talvez fosse. 

De qualquer forma aconteceu alguma coisa e toda a gente ficou muito excitada por ser alguma coisa e por ter acontecido. Aconteceu lentamente e depois foi acontecendo e a seguir aconteceu um pouco mais depressa e continuou a acontecer e aconteceu e aconteceu na verdade aconteceu e depois tinha acontecido e foi acontecendo e por fim lá estava o acontecimento e se estava é porque estava mas agora já ninguém se importava. 

E tudo isto parece estranho mas é absolutamente verdade.




Gertrude Stein, Ida.
	











GERTRUDE STEIN (1874-1946) nasceu na Pensilvânia, e era a irmã mais nova de cinco filhos. Os seus pais eram descendentes de judeus alemães. Estudou Psicologia, onde participou nos seminários de William James e, mais tarde, Medicina. Desiste enquanto frequenta o quarto ano, juntando-se ao irmão Leo Stein, em Paris. Em 1903, moram no lendário número 27 da rue de Fleurus. Juntos, adquirem obras de Cézanne, Renoir, Matisse e Picasso, tornando-se amigos destes. Aos trinta e dois anos, Gertrude Stein dirige, com Leo, um dos salões mais importantes de Paris, posando para Picasso e escrevendo o que viria a ser o seu primeiro livro, Três Vida&#38;nbsp;(1909). Em 1907, conhece Alice B. Toklas, com quem vive cerca de quarenta anos. No pós-guerra, com o cubismo em declínio, Apollinaire morto, Matisse e Picasso ricos e famosos, novos pintores e escritores começam a frequentar o salão de Stein: Gris, Picabia, Scott Fitzgerald e Hemingway. Stein alcança o seu primeiro sucesso literário com a publicação A autobiografia de Alice B. Toklas (1933). Em 1934, parte para uma tournée de palestras pela América, editadas em Lectures in America (1935), e onde encontramos A gradual feitura de A Feitura dos Americanos. Na sua vasta obra, encontramos, entre outros: Ternos Botões (1914), The Making of Americans (1925), Portraits and Prayers (1934), Everybody’s Autobiography (1937), O Mundo é Redondo (1939) e Ida (1941). Aos setenta e dois anos, Gertrude Stein adoece, acabando por falecer após uma operação. As suas últimas palavras para Alice foram: «Qual é a resposta?». Como não obteve resposta, continuou: «Nesse caso, qual é a pergunta?».
	



	

	


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		<title>A ficção como cesta: uma teoria</title>
				
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		<pubDate>Sat, 26 Mar 2022 16:20:15 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Dois Dias edições</dc:creator>

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	Capa mole,
offset, 100 pp. 2.ª edição 
	A ficção como cesta: 
uma teoria e outros textos


Ursula K. Le Guin
textos: Ursula K. Le Guin
desenhos: Dayana Lucastradução e design: Sofia Gonçalvesedição e revisão: Rui Almeida Paiva
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12€
   


	
	






	



	










A ficção como cesta: uma teoria e outros textos&#38;nbsp;é uma colecção de quatro ensaios de Ursula K. Le Guin,&#38;nbsp;apresentados por ordem cronológica, que tal como nos diz a autora na nota introdutória de Dancing at the Edge of the World (onde encontramos três dos quatro textos agora traduzidos para português),&#38;nbsp;pode «parecer um arranjo simplista, mas oferece uma biografia mental, um registo de respostas a climas&#38;nbsp;éticos e políticos, ao efeito transformador de certas ideias literárias e às mudanças que ocorrem numa mente». Socorremo-nos mais uma vez dos argumentos de Le Guin e do seu «Guia Ursulino», criado pela autora, para catalogar os seus próprios textos: estes&#38;nbsp;ensaios intersectam pressupostos da literatura com&#38;nbsp;o feminismo a partir de uma noção mais ampla de&#38;nbsp;responsabilidade social. Inspirados por Le Guin e&#38;nbsp;desafiando os limites do plano literário, colocámos&#38;nbsp;estes quatro ensaios em diálogo franco e permanente&#38;nbsp;com os desenhos de Dayana Lucas.


«A FICÇÃO COMO CESTA: UMA TEORIA» (1986)&#38;nbsp;coloca-nos perante uma questão primordial: que História&#38;nbsp;e estórias contaríamos se, em vez do osso, que depois&#38;nbsp;é machado, que depois é espada, que depois é uma&#38;nbsp;pistola, um canhão, uma metralhadora, que depois é uma&#38;nbsp;bomba, considerássemos os objectos que contêm outras&#38;nbsp;coisas a invenção mais importante da humanidade?&#38;nbsp;A partir desta hipótese, Le Guin desenha uma teoria&#38;nbsp;da ficção e apresenta um método narrativo que não vê&#38;nbsp;as estórias como lineares – o modelo progressista do&#38;nbsp;tecno-herói, que constrói as estórias como flechas em&#38;nbsp;direcção a um alvo –, mas as reconhece em toda a sua&#38;nbsp;complexidade. Nelas entram uma panóplia de ideias,&#38;nbsp;de coisas, por vezes difíceis de organizar, tal como em&#38;nbsp;qualquer saco ou contentor, e onde cada um de nós&#38;nbsp;poderá procurar e encontrar sempre coisas diferentes.


Desde o Livro do Genesis que as mulheres são&#38;nbsp;apresentadas como estando mais próximas da&#38;nbsp;Natureza. Ursula K. Le Guin, no ensaio «MULHERES/LUGAR SELVAGEM» (1986), transforma esta suposta&#38;nbsp;proximidade numa homologia heurística, enquanto&#38;nbsp;circunscreve e dinamita as limitações inerentes&#38;nbsp;aos discursos normativos. Dar voz aos silenciados,&#38;nbsp;fazer do outro familiar, imaginar plantas e pássaros&#38;nbsp;e rochedos como iguais, trazer os homens de novo&#38;nbsp;para esse lugar selvagem são alguns dos honestos&#38;nbsp;e desestabilizadores argumentos deste ensaio.


Le Guin diz-nos: «o problema com a imprensa é que&#38;nbsp;nunca muda de ideias». «O GÉNERO É NECESSÁRIO?&#38;nbsp;REDUX» (1976/1987) é um ensaio auto-crítico que&#38;nbsp;questiona esta determinação. Ao considerar que&#38;nbsp;toda a escrita e a sua consequente interpretação&#38;nbsp;são um processo e não um ponto fixo, Le Guin revê,&#38;nbsp;em simultâneo, The Left Hand of Darkness (um dos&#38;nbsp;seus mais aclamados romances, onde constrói um&#38;nbsp;mundo sem guerra, sem exploração e sem identidades&#38;nbsp;definidas por noções de género) – na versão «Is gender&#38;nbsp;necessary?», escrita em 1976 –, e a sua própria revisão&#38;nbsp;crítica – na versão Redux, de 1987. As «mentes que&#38;nbsp;não mudam são como amêijoas que não abrem»,&#38;nbsp;diz-nos Le Guin na nota introdutória. Ao ler o ensaio,&#38;nbsp;assistimos a um dos exercícios mais corajosos de&#38;nbsp;desmistificação. Afinal, o lugar do autor não é um&#38;nbsp;posto fixo, uma condição inabalável. É, pelo contrário,&#38;nbsp;um lugar de confronto que deve começar precisamente&#38;nbsp;por se confrontar consigo mesmo.


«APRESENTO-ME» (1992) é um ensaio desafiador&#38;nbsp;e sarcástico que examina estereótipos de género&#38;nbsp;e de identidade. Originalmente escrito como uma&#38;nbsp;performance, em 1992, o texto explora o que significa&#38;nbsp;ser mulher (e por extensão, homem). Nele, a autora&#38;nbsp;identifica-se como homem, um «homem de segunda»,&#38;nbsp;que chegou tarde à possibilidade de ser mulher, porque&#38;nbsp;a mulher, diz-nos, foi uma invenção recente e tardia.&#38;nbsp;Confessional, intenso em jogos de palavras e metáforas,&#38;nbsp;e expondo preconceitos que nos tornam meras vítimas&#38;nbsp;de convenções, Le Guin sublinha as incoerências&#38;nbsp;e querelas entre identidade e reconhecimento social,&#38;nbsp;perfeição física e envelhecimento, com tal sagacidade&#38;nbsp;e simplicidade que, no final, é difícil não rir&#38;nbsp;com o absurdo do estado das coisas.«(...) A Ficção Como Cesta: Uma Teoria e Outros Textos, quatro ensaios de Ursula K. Le Guin (1929-2918), escritora norte-americana celebrizada pelos seus romances no campo da ficção científica e especulativa. Em comum, um olhar sobre a História e a criação que tenta desmontar as imposições de género, o lugar subalterno da mulher e vários outros estereótipos. No texto que dá título ao conjunto, por exemplo, Ursula defende o lugar primacial, nos primeiros passos da Humanidade, do utensílio que carrega comida (em vez do que mata), da inteligência (em lugar da força) e da cultura humana (em substituição de uma de morte).»L.R.D., «Biografia, ensaio e “O Essencial sobre o Diário de Lisboa”: quatro novidades nas livrarias», Revista Visão&#38;nbsp;(05.07.2022)

«Uma monstruosidade ou um monumento, uma obra arquitectónica sem igual, sem função. É a obra de um insone onde a clareza de pensamento é indistinguível da contradição, onde o encadeamento lógico é trocado por uma respiração apressada, onde todas as coisas, todos os seres, apresentam uma faccies hippocratica, o sinal de uma morte que trabalha dentro deles e que, nas páginas de Geada, vão surgir à claridade, a uma luz mortal.»José Mário Silva, «“As mentes que não mudam são como as amêijoas que não abrem”: os ensaios de Ursula K. Le Guin», Revista E/Expresso&#38;nbsp;(11.09.2022)





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	O romance é um tipo de história fundamentalmente não-heróico. Claro que o herói, com frequência, a tomou de assalto, sendo essa a sua natureza imperial e o seu impulso incontrolável: dominar e executar tudo, enquanto redige decretos severos e leis para controlar o seu impulso pungente de matar. Então o herói decretou, através dos seus porta-vozes – os Legisladores –, primeiro, que a forma adequada da narrativa é a da flecha ou a da lança, que começando aqui e indo directo para lá, ZÁS! acerta no seu alvo (que cai morto); segundo, que a preocupação central da narrativa, incluindo o romance, é o conflito; e terceiro, que a história não vale nada se ele não estiver presente.

Discordo de tudo isto. Chegaria ao ponto de dizer que a forma natural, apropriada e adequada do romance, pode ser a de um saco, de uma cesta. Um livro carrega palavras. As palavras guardam coisas. Transportam significados. Um romance é um frasco medicinal, que mantém as coisas numa relação particular e poderosa entre si e connosco.

(...)&#38;nbsp;Por fim, é claro que o Herói não fica bem neste saco.&#38;nbsp;Precisa de um palco, de um&#38;nbsp;pedestal ou de um pináculo.&#38;nbsp;Colocado num saco, parece&#38;nbsp;um coelho, uma batata.&#38;nbsp;É por isso que gosto de&#38;nbsp;romances: em vez de heróis,&#38;nbsp;encontramos neles pessoas.
Então, quando comecei a escrever romances de ficção científica, arrastava este incrível e pesado saco de coisas, o meu saco estava cheio de fracos e de desajeitados, e de minúsculos grãos de coisas mais pequenas que um grão de mostarda, e de redes intrincadamente tecidas que, quando laboriosamente desenredadas, parecem conter uma pedrinha azul, um cronómetro de funcionamento imperturbável que nos mostra as horas de outro mundo, e o crânio de um rato; cheio de começos sem fim, de iniciações, de perdas, de transformações e traduções, e com muito mais truques do que conflitos, muito menos triunfos do que armadilhas e ilusões; cheio de naves espaciais que acabam emperradas, missões que fracassam e de pessoas que não compreendem. 


Ursula K. Le Guin, «A ficção como cesta: uma teoria»
	URSULA KROEBER LE GUIN (1929-2018) foi uma autora&#38;nbsp;americana particularmente reconhecida no campo da ficção&#38;nbsp;científica ou da ficção especulativa, mas a sua extensa e premiada&#38;nbsp;obra inclui 23 romances, 12 volumes de contos, 11 volumes&#38;nbsp;de poesia, 13 livros infantis, 5 colecções de ensaios e&#38;nbsp;crítica literária e 4 obras de tradução.
A antropologia, o taoísmo, o feminismo e a obra de Carl&#38;nbsp;Jung influenciaram a escrita de Le Guin. Temas eminentemente&#38;nbsp;políticos e sociais, como as questões de raça, género,&#38;nbsp;sexualidade, envelhecimento, colonialismo e militarismo são&#38;nbsp;frequentes na sua obra. Nela, encontramos ainda uma tendência&#38;nbsp;para desenhar e explorar estruturas políticas alternativas.

A recepção crítica da obra de Le Guin continua a sublinhar&#38;nbsp;o seu rigor e a sua disponibilidade para assumir riscos,&#38;nbsp;com uma obra sólida que desafia os limites da ficção literária.&#38;nbsp;Harold Bloom incluiu-a na sua lista de escritores clássicos&#38;nbsp;americanos. A sua influência é reconhecida em autores como&#38;nbsp;Salman Rushdie, Neil Gaiman e Iain Banks. A sua obra tem&#38;nbsp;ainda potenciado um conjunto significativo de estudos críticos&#38;nbsp;e académicos; no cinema, deu origem ao documentário Worlds&#38;nbsp;of Ursula K. Le Guin, realizado por Arwen Curry, em 2018.&#38;nbsp;Em 2021, a colecção Das Neue Alphabet (The New Alphabet),&#38;nbsp;publicada pela Haus der Kulturen der Welt, dedica o seu sexto&#38;nbsp;volume a uma análise crítica e à interpretação artística de&#38;nbsp;«The Carrier Bag Theory of Fiction».


DAYANA LUCAS (Caracas, 1987) desenvolve uma pesquisa&#38;nbsp;prática na área do desenho enquanto ritual e lugar de invocação&#38;nbsp;pré-linguístico, com particular interesse na sua passagem&#38;nbsp;para a escultura e o espaço. Trabalha também como designer&#38;nbsp;na área da cultura, tendo colaborado com músicos, artistas&#38;nbsp;plásticos e diversas instituições culturais portuguesas. Foi cofundadora&#38;nbsp;da Oficina Arara, onde desenvolveu, até 2017, trabalho&#38;nbsp;na área do design e da impressão com diversos meios manuais,&#38;nbsp;e na organização de exposições, workshops e encontros&#38;nbsp;com a comunidade artística do Porto. Colabora desde 2010&#38;nbsp;com o colectivo SOOPA e em 2019 criou o projeto ORINOCO no&#38;nbsp;qual se dedica à criação de livros e outras edições de artista.


	



	

	


 

	
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		<title>A analfabeta</title>
				
		<link>https://doisdias.pt/A-analfabeta</link>

		<pubDate>Mon, 17 Nov 2025 18:20:56 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Dois Dias edições</dc:creator>

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	Capa mole,
offset, 195x125mm, 64 pp.&#38;nbsp; 
	A analfabeta&#38;nbsp;
Relato autobiográfico


Agota Kristof
textos: Agota Kristof
desenho capa: Afonso Paivatradução: Rui Almeida Paivaedição, revisão e design: Sofia Gonçalves
	︎ 
   12€


	
	






	



	










Mantendo por um lado, num equilíbrio exímio, uma escrita depurada e assertiva, e, por outro, uma escrita profundamente poética (característica que é transversal na sua obra), Agota Kristof revela-nos, em A Analfabeta, os momentos chave da sua vida. 

A partir de um número mínimo de episódios explorados em poucas páginas, concentra, desta forma, a matéria literária, em cada capítulo, com a letalidade e rigor de uma arma demolidora. Agota Kristof é, aqui, uma testemunha da sua experiência – desde a primeira infância até à entrada na velhice. Marcam-na a guerra, a fuga do seu país, a separação da família, a sobrevivência enquanto refugiada, na Suíça, e, sobretudo, a separação insanável para com a sua língua materna, o húngaro, e a luta permanente, que durará toda a vida, para conquistar o francês, a tal língua “inimiga” que a deixou de novo analfabeta, aos vinte e um anos, e que foi a principal responsável por ir aniquilando a sua língua materna.





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	Um dia, a minha vizinha e amiga, diz-me:
— Vi na televisão um programa sobre mulheres trabalhadoras estrangeiras. Trabalham durante todo o dia na fábrica e à noite ocupam-se das tarefas domésticas e dos filhos.
Digo-lhe:
— Isso foi o que fiz quando cheguei à Suíça.
Ela diz:
— Mas elas, para além disso, nem sequer sabem falar francês.
— Eu também não sabia.
A minha amiga sente-se incomodada. Não me pode contar a história impressionante das mulheres estrangeiras que viu na televisão. Esqueceu-se de tal maneira do meu passado que é incapaz de imaginar que eu também pertenci àquele grupo de mulheres que não conhecem a língua do país, que trabalham nas fábricas durante todo o dia, e que cuidam da família à noite. 


Agota Kristof, Analfabeta: um relato autobiográfico
	AGOTA KRISTOF nasceu em Csikvand, Hungria, em 1935. Teve dois irmãos, Jenö, que dizia ser o seu duplo, e Attila, que se tornará escritor. Aprende a ler muito rapidamente, aos quatro anos. Em 1944, a família muda-se para Köszeg, a futura cidade da Trilogia da Cidade de K., na fronteira austro-húngara. A Hungria é ocupada, em 1949, pelas tropas soviéticas. Agota Kristof entra no colégio interno de Szombathely. Para escapar às duras condições de vida e ao tédio, começa a escrever poemas e peças de teatro, e mantém um diário. Nenhum deste material literário sobreviveu. Em 1956, abandona clandestinamente o seu país na companhia do seu marido e da sua filha recém-nascida. Refugiam-se em Neuchatel, na Suíça. Agota Kristof refugia-se igualmente na língua francesa, essa língua que lhe foi imposta pelo acaso, e que lhe iria “vampirizar” a língua materna. Trabalha durante anos como operária numa fábrica de peças para relógios. Nas décadas seguintes, continua a escrever, sobretudo poemas e peças de teatro. Pouco deste material é publicado. Entre 1981 e 1984, escreve O Grande Caderno. Gilles Carpentier, das Éditions du Seuil, publica-o em 1986 e foi um sucesso imediato, tendo conquistado o Prémio Europeu do Livro, em 1987. A partir de então, dedica-se inteiramente à escrita, publicando A Prova, em 1988, seguido de A Terceira Mentira, em 1991, novamente com a Seuil, a sua editora regular. Estes três títulos são atualmente lidos como a Trilogia da Cidade de K.. Entretanto, em 1989 e 1990, a revista Du, de Zurique, publica em alemão os textos que viriam a constituir A Analfabeta. No final da sua vida, Agota Kristof deixa de escrever em francês e entrega todos os seus manuscritos, a sua máquina de escrever, e o seu dicionário bilingue húngaro-francês, ao Arquivo Literário Suíço. Em março de 2011, é-lhe atribuído o Prémio Kossuth, o mais prestigiado prémio literário da Hungria. Foi, para ela, um sinal de reconhecimento do seu país natal. Agota Kristof morre pouco tempo depois, a 27 de julho de 2011.

	



	

	


 

	
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	</item>
		
		
	<item>
		<title>O Montro e outras peças</title>
				
		<link>https://doisdias.pt/O-Montro-e-outras-pecas</link>

		<pubDate>Tue, 26 May 2026 18:37:42 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Dois Dias edições</dc:creator>

		<guid isPermaLink="true">https://doisdias.pt/O-Montro-e-outras-pecas</guid>

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	Capa mole,
offset, 195x125mm, 132 pp.&#38;nbsp; 
	O Monstro e outras peças


Agota Kristof
textos: Agota Kristof
tradução: Rui Almeida Paivaedição, revisão e design: Sofia Gonçalves
	︎ 14€



	
	






	



	





















Com a presente edição temos acesso, pela primeira vez, em português, a uma parte fulcral da literatura de Agota Kristof – o teatro. Apesar de escrever em vários géneros literários desde a adolescência, é o teatro que marca o início da carreira literária de Kristof. As suas peças começam por ser representadas em pequenos cafés de Neuchâtel, na Suíça. Nesse arranque são já tratados os temas essenciais da sua restante obra literária: as fronteiras, a identidade, a violência, a solidão. O estilo breve, conciso, implacável começa aqui a ganhar forma com a sua escrita para teatro, onde as referências espaciais e temporais são praticamente anuladas. Em algumas peças deixa a indicação “pode ser representado sem cenário”, e evita referências que possam distrair o espectador ou situá-lo num contexto determinado. 


Kristof, a partir da sua escrita para teatro, oferece-nos uma visão lúcida e cruel de um mundo dominado pela violência e o isolamento. Os protagonistas são anti-heróis que não inspiram compaixão, empatia ou simpatia, apenas desassossego e incompreensão.


Se tivéssemos que resumir o seu teatro (e a globalidade da sua obra) a um único tema seria com certeza a fronteira, que não se pode nem se deve atravessar. Quando um personagem o ousa fazer, desencadeia um mecanismo de consequências imprevisíveis. 
Em O Monstro, acabar com o Monstro e com a fronteira que o define leva à aniquilação da povoação. Em A estrada, uma das peças favoritas da escritora – que se declarava inimiga dos automóveis – as estradas, à semelhança das fronteiras, dilaceram o mundo. A fronteira encontra-se igualmente em A epidemia e A expiação, funcionando como um fantasma que avança com o desejo irreprimível de conquistar novos territórios aos humanos(tanto exteriores como interiores).


Agota Kristof produz um total de vinte e quatro peças teatrais. Algumas das suas peças mais famosas são editadas pela primeira vez pelas Éditions du Seuil, em 1998.





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	NOB: O Monstro está a crescer, Lil, a crescer sem parar, tu sabes disso.

LIL: Sim, cresce, e então? Há espaço suficiente para todos.

NOB: Talvez ainda haja espaço suficiente, sim. Mas o Monstro come cada vez mais, o seu cheiro é cada vez mais forte, e respira cada vez mais ruidosamente. E… come qualquer coisa, incluindo homens.

LIL: Oh, és irritante! Ele não faz de propósito. O que se passou foi… foram apenas uns imprudentes que se colocaram mesmo à frente da sua boca. Ele fechou a boca, foi só isso. Não há qualquer maldade nele. E nem sequer consegue mover-se.

NOB: De vez em quando esmaga uma criança com as suas patas…

LIL: Ele é pesado e desajeitado, nada mais. Não o faz por maldade. São as mães que têm o dever de vigiar melhor os seus filhos.



 
Agota Kristof, O Monstro
	AGOTA KRISTOF 










nasce em Csikvand, Hungria, em 1935. Teve dois irmãos, Jenö, que dizia ser o seu duplo, e Attila, que se tornará escritor. Aprende a ler muito rapidamente, aos quatro anos.Em 1944, a família muda-se para Köszeg, a futura cidade da Trilogia da Cidade de K., na fronteira austro-húngara. A Hungria é ocupada, em 1949, pelas tropas soviéticas. Agota Kristof entra no colégio interno de Szombathely. Para escapar às duras condições de vida e ao tédio, começa a escrever poemas e peças de teatro, e mantém um diário. Nenhum deste material literário sobreviveu. Em 1956, abandona clandestinamente o seu país na companhia do seu marido e da sua filha recém-nascida. Refugiam-se em Neuchatel, na Suíça. Kristof refugia-se igualmente na língua francesa, essa língua que lhe foi imposta pelo acaso, e que lhe iria “vampirizar” a língua materna. 

Trabalha durante anos como operária numa fábrica de peças para relógios. Nas décadas seguintes, continua a escrever, sobretudo poemas e peças de teatro. Desde 1972, dedica-se à dramaturgia ao ritmo de aproximadamente uma obra por ano. Os manuscritos acumulam-se numa estante. Por acaso, alguém lhe recomenda que envie os seus textos teatrais para a rádio. Entre 1978 e 1983, a Rádio Suíça Francófona estreia cinco peças, lidas por atores profissionais. Estas primeiras obras são assinadas com o pseudónimo Zaïk (apelido da sua avó materna, de origem checa), para evitar a associação do seu nome a Agatha Christie. 

Entre 1981e 1984, escreve O Grande Caderno. Gilles Carpentier, das Éditions du Seuil, publica-o em 1986 e foi um sucesso imediato, tendo conquistado o Prémio Europeu do Livro, em 1987. A partir de então, dedica-se inteiramente à escrita, publicando A Prova, em 1988, seguido de A Terceira Mentira, em 1991, novamente com a Seuil, a sua editora regular. Estes três títulos são atualmente lidos como a Trilogia da Cidade de K.. Entretanto, em 1989 e 1990, a revista Du, de Zurique, publica em alemão os textos que viriam a constituir A Analfabeta.

Agota Kristof morre a 27 de julho de 2011.





	



	

	


 

	
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	</item>
		
		
	<item>
		<title>as melhores intenções</title>
				
		<link>https://doisdias.pt/as-melhores-intencoes</link>

		<pubDate>Tue, 26 May 2026 18:04:56 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Dois Dias edições</dc:creator>

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	Capa mole,
offset, 195x125mm, 408 pp.&#38;nbsp; 
	As melhores intenções&#38;nbsp;



Ingmar Bergman
textos: Ingmar Bergman
tradução: João Reisedição, revisão: Rui Almeida Paiva, Sofia Gonçalves
design: Sofia Gonçalves
	︎ 

20€



	
	






	



	






















No final da sua vida, Ingmar Bergman (1918-2007), abandonando o cinema e o teatro, atira-se à produção literária com a mesma obsessão. Dando-se conta de que o tempo, o seu, se está a esgotar, dedica-se a uma escrita premente, vertiginosa, para dar continuidade à tarefa de preencher as lacunas do seu passado, esgravatar as suas repressões íntimas, e responder às questões que ao longo da vida o atormentaram, e que obstinadamente lhe foram escapando. 


Com sessenta e nove anos lança o seu primeiro livro assumidamente literário (A Lanterna Mágica), que tem um excelente acolhimento do público e da crítica. Confiante, inicia, sem demoras, a sua derradeira trilogia, que a Dois Dias editará na íntegra: As melhores intenções, Filhos de domingo, Confissões privadas.


Neste primeiro volume, As melhores intenções (expressão que é usada ao longo destas páginas com um sarcasmo e um humor implacáveis), Bergman entrega-se à experiência irracional, que foge ao seu domínio, de ligar o seu fim ao seu início. Mas que início é este, para Bergman? No caso de As melhores intenções, o seu método livre de engenhos e amarras literárias, liberta-o para alcançar um passado longínquo apetecível, misterioso e enigmático – o aquém da sua própria existência física. Através destas páginas vai formando um túnel suficientemente comprido que o leve à superação das distâncias impossíveis, garantindo o acesso, através de um trabalho tão metódico quanto despreocupado com as provas factuais, aos momentos que antecedem o seu nascimento. Bastam-lhe, enquanto substância estimulante, as fotografias dos álbuns de família que herdou (e esparsos depoimentos e documentos), para entrar nas imagens, e ser-lhe possível, ao deambular por lá, a sua escrita fluir.


Bergman percorre um período temporal marcado com primor, através de dois traços – o momento em que os seus pais se conhecem, e os dias anteriores ao seu nascimento.


Através da sua prosa vigorosa, irónica e afiada, no decorrer de As melhores intenções entramos num ardil complexo de aparências, um baile de máscaras tão festivo quanto trágico, onde (num deslize acidental e aparentemente banal, ou num conflito explosivo), por momentos, a máscara cai. Sobretudo através de longos diálogos são-nos exibidos esses momentos fugazes, embora decisivos, em que as máscaras da mãe, do pai, e da sua avó materna escorregam. 


Preencher vazios, habitando-os, talvez seja este o propósito lapidar desta criação literária de grande fôlego. Numa compulsão irrefreável, e através do jogo lúdico da ficção, as circunstâncias, as conversas privadas, os encontros e desencontros dos seus progenitores tornam-se, para Bergman, irrefutáveis – ao ponto de se erguer, desta empreitada, a matéria meticulosa e repleta de detalhes, de que é feita a vida. 




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	Johan: Ai, cortaste-me o dedo mindinho.

Karin: Vejo tão mal. Não te podes virar um pouco?

Johan: Assim não vejo para ler.

Karin: Não percebo o que fazes às unhas dos pés.

Johan: Roo-as.

Karin: Devias ir ao calista.

Johan: Nem pensar. Não sou sodomita.

Karin: Tens aqui um calo; tenho de to tirar.

Johan: (enquanto lê o jornal) Se mo tirares, perco o equilíbrio. Já assim tenho dificuldade em andar.

Karin: Tenho uma paciência incrível. Incrível. A sério.

Johan: Não te faças de vítima, meu amor. Adoras mexer em ouvidos, fazer ligaduras, espremer borbulhas e pontos negros, e aparar os pelos do nariz a quem quer que seja. E, sobretudo, de cortar unhas dos pés. É a tua perversão.

Karin: Ao menos levanta um pouco o pé.

Johan: Gosto de te ver aos meus pés.

Karin: Estou aos teus pés para não andares por aí como um javardo.

Johan: Quem tem a mente limpa não precisa de lavar os pés.

Karin: E tu tens?

Johan: Tenho o quê?



 
Ingmar Bergman, As melhores intenções
	











ERNST INGMAR BERGMAN nasceu a 14 de julho de 1918 em Uppsala, na Suécia, filho de um pastor luterano rigoroso e de uma mãe dominadora. A sua educação baseada em noções rígidas de pecado, castigo e confissão moldou fortemente a sua visão de mundo. Encontrou refúgio na arte desde cedo, começando a sua carreira no teatro universitário antes de se dedicar ao cinema e à escrita.

Dirigiu mais de 170 produções teatrais e realizou mais de 60 filmes, destacando-se pelo seu estilo introspectivo e existencialista. A sua obra é profundamente marcada por temas como a mortalidade, a fé, a culpa e a complexidade das relações humanas. 

Em 1987, publica um ensaio autobiográfico, Lanterna Mágica, seguido, em 1990, de uma análise dos seus filmes: Imagens. Escreve o romance-argumento As Melhores Intenções, um retrato da vida dos seus pais, cuja adaptação para televisão e cinema virá a ser concretizada pelo realizador dinamarquês Bille August. O filme obterá a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1992. Em 1993 publica 
Filhos de Domingo, segundo momento da trilogia. A obra centra-se num fim de semana onde o pequeno Pu, de 8 anos, presencia tensões familiares que abalam o seu mundo, servindo de mote para explorar a sua relação simultaneamente conflituosa e terna com o pai. O livro será adaptado para cinema pelo seu filho Daniel Bergman. Confissões Privadas, último livro da trilogia, será publicado em 1996, e adaptado para cinema por Liv Ulmann.






	



	

	


 

	
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		<title>Geada</title>
				
		<link>https://doisdias.pt/Geada</link>

		<pubDate>Wed, 24 Aug 2022 20:36:04 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Dois Dias edições</dc:creator>

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	Capa mole,
offset, 336 pp.
 
	Geada


Thomas Bernhard
texto: Thomas Bernhard
posfácio: Marcos Foztradução: Bruno C. Duarteedição e revisão: Rui Almeida Paiva e Sofia Gonçalves
design: Sofia Gonçalves


	︎ 
17,5€


	
	






	



	





















Relato de surpreendente robustez e de latente lirismo, Geada (1963) representou a revelação de Thomas Bernhard como um dos grandes escritores do século XX. Um perturbante e isolado vale austríaco, camuflado por uma geada permanente, e a ligação de um estudante de medicina a um pintor aí recolhido há vinte anos numa incessante degradação mental, são os bastidores que sustentam as observações e reflexões sobre a morte, a solidão, a velhice, a educação, a arte e a pobreza (da condição humana, de espírito), que vão percorrendo o romance, e que, aparentemente desconexas entre si, formam um sistema coerente que se confronta permanentemente com a nossa incapacidade de submeter o mundo a um processo de racionalização. 


Em Geada, está ausente uma intenção deliberada de contar uma história. O estudante escuta o pintor, que vai expondo as suas reflexões e observações sobre as suas dores físicas e existenciais em constante diálogo com o que o rodeia. Quanto à história, tem o leitor de a ir concebendo por si, à medida que os pensamentos dos dois personagens nos vão chegando. 


Este é o romance inaugural de uma voz particular e inconfundível da literatura. Porém, até chegar a ele, durante dez anos, Bernhard escreveu vários romances de centenas de páginas que nunca chegou a mostrar, por considerar o resultado final pouco interessante. No caso de Geada, «tive mesmo a sensação, quando terminei, de que isso era qualquer coisa que realmente ainda ninguém tinha feito, e também que ninguém imitaria». «Eu nunca pensei na forma, ela surgiu espontaneamente, segundo o que eu sou e escrevo. Nós temos, claro, modelos e histórias. Mas creio que, antes do romance Geada, no fundo não havia realmente nada do género. Foi a primeira vez que desse modo se escreveu» (Kurt Hofmann, Em Conversa com Thomas Bernhard, Assírio e Alvim, 2006, pp. 51, 29).«Uma monstruosidade ou um monumento, uma obra arquitectónica sem igual, sem função. É a obra de um insone onde a clareza de pensamento é indistinguível da contradição, onde o encadeamento lógico é trocado por uma respiração apressada, onde todas as coisas, todos os seres, apresentam uma faccies hippocratica, o sinal de uma morte que trabalha dentro deles e que, nas páginas de Geada, vão surgir à claridade, a uma luz mortal.»João Oliveira Duarte, «Thomas Bernhard. O vento gélido da escrita», SOL&#38;nbsp;(22.09.2022)«Enquanto nos romances curtos de Bernhard nos impressionam a concisão e a ferocidade, Geada esmaga-nos com a sua abundância, como um nevão. Espaçadamente, encontramos um certo tom literário que desaparecerá em livros subsequentes; já o carácter repetitivo, e até entediante, é deliberado, porque ilustra um sintoma, ou um case study. E é impressionante como Bernhard mantém vigoroso e estruturado o seu discurso (a tradução faz-lhe justiça), autobiográfico, inventado, abstracto e empírico, justapondo ideias e tonalidades do horizonte intelectual germânico (da morbidez de Benn à sapiência nebulosa de Heidegger e à selvageria de Kraus) à paisagem invernia. Uma paisagem que mais se diria um emblema, com a geada que engole os lugares e as personagens, anunciando uma nova Idade do Gelo.»Pedro Mexia, «Idade do gelo: o que se pode conhecer de um homem em apenas 27 dias», Revista E/Expresso&#38;nbsp;(23.10.2022)





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	O pintor Strauch pertence àquele tipo de pessoas que tornam líquido seja o que for. Aquilo em que tocam, derrete. O carácter, tudo o que há de mais sólido. «A mim não me podem ver, porque não se pode ver nada», disse ele, e: «Os princípios que põem milénios em marcha.» E ainda: «Qualquer actividade pressupõe uma outra antes dela, qualquer espécie uma outra, qualquer sentido um outro sentido, o sentido profundo, o sem-sentido, e vice-versa, e os dois em simultâneo.» Para ele, o pequeno-almoço é «cerimónia a mais. Mal pego na colher, salta à vista todo o ridículo da situação. Todo o absurdo. Só o cubo de açúcar já é um atentado à minha pessoa. O pão. O leite. Uma catástrofe. É assim que começa o dia com uma doçura traiçoeira.»&#38;nbsp;


Thomas Bernhard, Geada
	










THOMAS BERNHARD nasce a 9 de Fevereiro de 1931, em Heerlen, na Holanda. Morre na sua casa, em Gmunden, na Áustria, em 1989. Filho ilegítimo da austríaca Herta Bernhard, mulher solteira que fugira para a Holanda para dar à luz, e de um pai que nunca conheceu, passou a infância com a mãe e os avós maternos, em Viena. Nos seus primeiros anos de vida, o seu avô, que era escritor, esteve sempre presente na sua educação, tornando-se uma influência determinante. Esteve em dois internatos, um nacional-socialista e outro católico, e aprendeu música, tendo aulas de canto e violino. Mais tarde, estudou representação e direcção de actores. Entre 1952 e 1955, Bernhard colaborou com vários jornais. Em 1957, publica o seu mais conhecido livro de poesia, Na Terra e no Inferno, e, em 1963, Geada, o seu primeiro romance. Autor maior da segunda metade do século XX, sempre foi considerado um escritor polémico, mantendo uma relação de amor-ódio com a Áustria. O seu ressentimento é perceptível no seu testamento, no qual proíbe a encenação das suas peças teatrais em território austríaco. 


Ao longo da infância e início de juventude, com a sua excelente voz de barítono, chegou a pensar fazer carreira artística como cantor. Devido a uma doença pulmonar na juventude, foi forçado a abdicar dessa intenção. Contudo, estes estudos foram preponderantes na sua criação literária. As suas frases desenvolvem-se frequentemente numa espécie de espiral aparentemente caótica, com todas as suas repetições e variações, provocando, através de uma cadeia de pensamentos, uma reflexão estruturada e certeira. Não há, nas suas narrativas, uma acção, no sentido em que geralmente este conceito é utilizado. Há normalmente um narrador ou uma figura que pensa, que recorda. A reflexão e a linguagem são, desta feita, duas linhas que se vão entrelaçando, formando um único plano ao longo da sua obra literária. 





	



	

	


 

	
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		<title>Cata Log Cata Strofe</title>
				
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		<pubDate>Sun, 03 Jul 2022 12:51:10 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Dois Dias edições</dc:creator>

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	Capa mole,
offset, 180x110mm, 432 pp.
 
	Cata Log 
Cata Strofe


Mattia DenisseArthur Dessine
textos: Mattia Denisse, Arthur Dessine, Bruno Marchand, Rui Almeida Paiva
desenhos: Mattia Denissedesign: Sofia Gonçalvesrevisão: Dois Dias e Les Catacombistes&#38;nbsp;
edição: Dois Dias e Culturgest


	︎&#38;nbsp;14,5€
  


	
	






	



	











Um transeunte: — O que é isto?

O livro: — Sou um romance putativo, um catálogo de ideias e uma ideia de catálogo, um programa de rádio, uma tragédia, uma fábula obsoletista, um livro de ficção científica, um ensaio literário sobre bricolage, um modo de emprego sem destino, um protocolo necessário, uma logorreia, a última actualização do mito, um engodo, um novo método para encher chouriços, um oráculo, um fracasso económico, um objecto biodesagradável, um livro de imagens com textos que as acompanham e de textos com imagens que os ilustram, o caos, uma tentativa de deformar bolsos, uma maneira de dar títulos aos títulos, o caos (bis), a verdade, toda a verdade, um paralelepípedo, 432 páginas em papel de 90g com um pouco de tinta…






«Cata Log Cata Strofe é o sétimo livro de Mattia Denisse. (...) Embora surja na sequência da exposição Hápax, apresentada na Culturgest, em Lisboa, entre 24 de Junho e 30 de Outubro de 2022, este livro não é um catálogo. O seu propósito não é documentar a exposição nem reproduzir de modo fidedigno as obras de Mattia Denisse. O seu objectivo é reunir, num volume o mais módico possível, o maior número de referências visuais e textuais do universo do autor. (...) 











Na base do projecto esteve a intenção de fazer um livro de bolso, no formato 18 x 11 cm, a preto e branco, em tudo semelhante àqueles que, ao longo do século xx, ajudaram a democratizar o acesso à literatura. (...) 











Cata Log Cata Strofe contém 1759 ilustrações distribuídas por 35 séries, correspondendo à quase totalidade da obra gráfica de Mattia Denisse produzida até à data. (...) 











A introdução das séries no livro é feita por ordem alfabética de título. Esta opção sublinha o carácter referencial e indexical que o livro sempre pretendeu ter. Evitar deliberadamente a organização cronológica das séries significa complicar eventuais abordagens historiográficas ao trabalho do artista. Os intervalos e os saltos temporais que a ordem alfabética impõe à leitura das obras promove uma concentração da atenção do leitor na singularidade de cada série e desencoraja as tentativas de encontrar na sua sucessão uma linha evolutiva. Cata Log Cata Strofe funciona como um corte sincrónico que expõe a totalidade da obra de Mattia Denisse num mesmo momento. A lógica diacrónica não tem lugar no universo do artista. O tempo nem passa nem volta. Tudo coexiste em infinita horizontalidade.»
Bruno Marchand, em «Prefácio»«Para Denisse, ‘texto e imagem têm exatamente o mesmo valor e o mesmo estatuto, enquanto elementos que colaboram no desvendar do seu universo artístico particular’, deste modo, ‘tudo o que é da ordem da realidade, mas também da surrealidade, do sonho, do fantasma, do espanto e dos fenómenos subtis, tem cabimento’, na expressão do artista, a par de ‘um certo apreço pelo estudo e pelos métodos científicos’.»«Culturgest inaugura "mais extensa" exposição do artista francês Mattia Denisse», Expresso&#38;nbsp;(24.06.2022)«Falemos agora do livro (…) O livro é, e não é, um catálogo da exposição. Mattia Denisse trabalha sempre a imagem e o texto, joga com as palavras, a sua construção e a sua sintaxe, como joga com as formas visuais. Combina o português e o francês numa nova língua que deve, e muito, à anti-arte dadaísta, a Alfred Jarry e tantos outros, que quiseram, de facto, partir do zero, também no texto.»Luísa Soares de Oliveira,&#38;nbsp;«Tudo e mais alguma coisa», Ipsilon/Público (27.07.2022)«A ideia para Cata-log cata-strofe era fazer um livro de literatura no sentido mais abrangente do termo. Queria que as pessoas pudessem ler este livro como se estivessem a ler um romance. O livro de bolso permite isso, pois há livros de bolso de romance, de história, de ciências, de artes... A única coisa que têm em comum é o formato. Fizemos aquilo que se faz num livro deste tipo, mas ao contrário: o texto principal ocupa a parte central, onde normalmente estão as imagens. A intenção foi criar espaço para os títulos, que muitas vezes são quase textos. Cata-log cata-strofe oferece-nos a possibilidade de pôr as obras junto com os seus títulos e de dar títulos aos títulos. As imagens a preto e branco funcionam como mnemónicas, como os “Desenhos tautológicos” relativamente aos seus desenhos originais. Mas as técnicas mnemónicas tornam-se obsoletas com o desconhecimento ou esquecimento do que se quis lembrar. A função do desenho torna-se inoperante, logo o desenho torna-se autónomo. Torna-se desenho.»Catarina Rosendo, Mattia Denisse, «Mattia Denisse: o Erro como «Lugar da Verdade» — uma conversa com Catarina Rosendo», Revista Contemporânea (08.2022)








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	&#38;nbsp;“JINGLE DO PROGRAMA: Ah ah, e acrescentou, por agora, nada mais. ZZZZZZ… Estás em directo com Poulp-Ubique, o programa omnipresente nos teus ouvidos ZZZZZZ… quando o ouves… ouves-me! Ouve-me até à tua total obliteração no todo.

CORO: Ó, presente omnipresente!

ARTHUR DESSINE: O tempo, dizia eu. Quando? E aqui escancaro três portas entreabertas. O presente, o futuro e o passado. Poulp-Ubique é um programa no Presente, no omnipresente! O Presente com um P maiúsculo. O Presente que é a única utopia na qual vale a pena pensar, e, como dano colateral, viver! Dos três tempos, o Presente é o mais paradoxal, porque responde sempre «Presente!», tal e qual um prisioneiro ou um aluno zeloso o faria. Está, no entanto, sempre ausente: «O que eu sou não sei, o que eu sei não o sou», disse Angelus Silesius.

CORO: Ó, futuro capital!

ARTHUR DESSINE:  Poulp-Ubique é um programa no Futuro! Logicamente, trataremos o Futuro como deve ser, com um F capital! E isto graças ao poder e à técnica dos augures que alguns convidados dominam na perfeição (capacidade que assenta na leitura dos presságios que virão antes de nós). Contudo, não faremos apostas tolas sobre o futuro. Que os profetas da desgraça sejam todos amaldiçoados.

CORO: Ó, massa informe! Ah, textura gelatinosa! Ó, pudim!

ARTHUR DESSINE: Quanto ao Passado, é, por assim dizer, o tempo mais presente dos três, porque, e ao contrário do que parece indicar, está aqui e agora gravado para sempre no espaço-tempo. Para o visualizar, imaginem um aglomerado de engramas; uma massa informe que tem a textura gelatinosa de um pudim esbranquiçado, no qual flutuam pedaços mais rijos e condensados. O Passado será uma muleta com a qual poderemos contar em caso de dúvida.

VOZ-OFF: Uf!”



 

Mattia Denisse, «Rádio Ubique»
	MATTIA DENISSE (Blois, França, 1967) vive em Lisboa desde
1999. Estrangeiro ou extraterrestre, Mattia Denisse nunca se sentiu
de nenhum lado. Por não ter paciência para esperar ser condenado por outros ao
exílio, viajou. Pela Europa, África e Brasil, procurando algures o que poderia
ter provavelmente achado se ficasse lá onde estava. Como “é preciso
traficar alguma coisa enquanto se espera que a noite venha”, escolheu a arte ou
a arte escolheu-o, como meio, para sobreviver. Aos 7 anos e meio, instala-se no
meio da planície no campo vizinho com um cavalete e uma tela e pinta uma
paisagem de montanha que forma uma baía, no horizonte, com o mar. Descobre,
espantado, “que a arte é o lugar de todos os possíveis”. Depois da
pintura como iniciação, explorará sobretudo a instalação como “espaço trópico”:
projeto de reconstrução à escala planetária de uma “paisagem paradigmática”. O
conjunto destas obras seria o ressurgir “de um paraíso” do qual se
reencontrasse os fragmentos dispersos à superfície do globo. Em 2006, parte
para Cabo Verde onde experimenta a insularidade. Nesta vida, onde o tédio é uma
condição sine qua non do destino, escreve e desenha, que são,
para ele, dois meios de passar, sem intermediários, de um pensamento a
“qualquer coisa”. De regresso a Lisboa, Mattia Denisse dedicou-se
quase exclusivamente ao desenho e à escrita, trabalho centrípeto em relação ao
lado centrífugo das viagens.


	



	

	


 

	
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		<title>Páginas Inquietas</title>
				
		<link>https://doisdias.pt/Paginas-Inquietas</link>

		<pubDate>Wed, 22 Dec 2021 16:15:51 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Dois Dias edições</dc:creator>

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	Caixa com 10 panfletos, 2 cartazes e um
jornal, edição bilingue (português/inglês), offset, 235x165mm, 224 pp., 500 exemplares.



 
	Páginas Inquietas: sobre documentos insubmissos

Mário Moura 
e Susana Gaudêncio (eds.)



















textos: Mário Moura e Susana Gaudêncio,António Guerreiro, Helena Sofia Silva, Ricardo Nicolaupublicações-satélite: Isabel Carvalho, Márcia Novais, Oficina Ararafotografias: Catarina Botelhoedição: Sofia Gonçalves e Susana Gaudênciodesign: Sofia Gonçalvestradução: Susana Pombarevisão: Sofia Gonçalves, Susana Gaudêncio


	︎ 
25€&#38;nbsp; &#38;nbsp;17,5€
	




	



















&#38;nbsp;









	Alguns são objectos pequenos, portáteis,
que se escondem no bolso ou na palma da mão. São assim para circular
discretamente ou porque não há dinheiro para mais. Resumem-se a uma folha
impressa dos dois lados, dobrada para simular a ideia de revista. Outros são
grandes, demasiado grandes, é difícil desdobrá-los, as suas páginas viram-se
com desordem e ruído. Lê-los em público chama necessariamente a atenção,
incomoda a pessoa no lugar ao lado, da mesa do fundo, provoca o burburinho
alheio. São o equivalente impresso de quem ouve música alto no autocarro.
Outros são impossíveis de ler fora de casa: vêm em formatos estranhos,
exóticos, caixas, posters que se dobram para fazer páginas, encadernações de
elástico, capas que brilham como os espelhos com que se fazem sinais a partir
de uma ilha deserta. Alguns cheiram a novo, acabados de fazer; outros
envelheceram, melhor ou pior. O mesmo formato que os tornou tão estranhos e
ofensivos ameaça destruí-los, rasgá-los, torcê-los, esmagá-los. 



&#60;img width="2995" height="1997" width_o="2995" height_o="1997" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/d6e3009152595de3bed07840af70a010a5cfb5cc4ac756261aa795ca56d36120/__PI_B_1.jpg" data-mid="128035733" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/d6e3009152595de3bed07840af70a010a5cfb5cc4ac756261aa795ca56d36120/__PI_B_1.jpg" /&#62;
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&#60;img width="2995" height="1997" width_o="2995" height_o="1997" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/25c32405a31ba0603608eb3bfb000f0e68330e68ac9141e853ae5387929338bf/__PI_B1_1.jpg" data-mid="128035803" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/25c32405a31ba0603608eb3bfb000f0e68330e68ac9141e853ae5387929338bf/__PI_B1_1.jpg" /&#62;
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&#60;img width="2995" height="1997" width_o="2995" height_o="1997" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/82e62a5d271af502e26865792623d56d1755d9eed8c9673c064774f698b624f1/__PI_B6_2.jpg" data-mid="128035849" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/82e62a5d271af502e26865792623d56d1755d9eed8c9673c064774f698b624f1/__PI_B6_2.jpg" /&#62;
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Páginas Inquietas apresenta publicações cujos temas se
relacionam com a urgência do acto político, social ou subversivo. E cujo
aspecto gráfico chama a atenção. Tenta-se perceber se a sua política se
alicerça – ou não – nas suas formas gráficas, no seu formato, nos seus
materiais. Foram eleitas cerca de cinquenta publicações nacionais e internacionais, produzidas
entre 1901 e 2019, organizadas em seis núcleos temáticos:

1) SUBVERSÃO PELO CORREIO.
Objectos concebidos para distribuição postal, que permitem formatos e conteúdos
exóticos, agressivos
e/ou frágeis demais para serem distribuídos em livrarias.
 
2)&#38;nbsp;PASQUINS
DE RUA. Objectos de intervenção e mobilização
directa.
 
3)&#38;nbsp;REVOLUÇÃO,
ALEGRIA, DESILUSÃO. Objectos sobre o 25 de Abril de 1974, antecipando-o,
comemorando-o, registando-o, desde a euforia
à desilusão e à memória.

4)&#38;nbsp;CIDADÃOS DA REPÚBLICA
GRÁFICA. Objectos que se
situam na esfera pública, comentando-a, criticando-a, levantando-lhe um espelho
caricatural que permite vê-la tal como é.
 
5)&#38;nbsp;PODE-SE ESCREVER COM ISTO.
Objectos que derivam a sua existência de graffitis, panfletos e outros
formatos efémeros.

6)IDENTIDADE
X. Objectos que, através da edição, criam espaços de ensaio e construção
para novas identidades públicas, abordando assuntos políticos de representação,
género, sexualidade, etc.

Para enfatizar o carácter lacunar do arquivo e inscrevê-lo no presente, convidou-se a artista Isabel Carvalho, a designer Márcia Novais e o colectivo
de designers e artistas Oficina Arara, para
reler este acervo, e a partir de uma
dimensão artística/poética/política produzirem três novos objectos insubmissos. 

















Páginas Inquietas inclui também três ensaios do curador e editor Ricardo Nicolau, do crítico literário e ensaísta
António Guerreiro, e da professora e investigadora Helena Sofia Silva. A
artista Catarina Botelho produziu uma série de nove imagens – Resistência
vegetal –, uma por cada ensaio e núcleo temático, que assim cria um sistema de ressonâncias com
os livros, publicações e documentos insubmissos.
Projecto apoiado pelo Programa Criatório/Porto. PRÉMIO DESIGN DE LIVROS 2020 (DGLAB).


︎︎︎︎︎︎
 
	

	
	Um princípio determinante do comércio dos livros, aquele que diz que
«livro exposto é livro vendido», tornou-se o motivo de uma guerra civil neste
sector porque o privilégio da exposição ficou bastante diminuído e há evidentemente
espécies bibliográficas que são mais atingidas do que outras por essa
limitação. Certo é que uma série de contingências do mercado livreiro e dos
hábitos de leitura (que uma
sociologia da cultura descreve e analisa) determinaram progressivamente as decisões e cálculos respeitantes ao aspecto dos livros,
ao tipo de papel utilizado, à imagem da capa e a toda a sua produção gráfica e
tipográfica. 



E foi assim que os códigos de identificação das espécies de livros e do
lugar que eles ocupavam na hierarquia cultural foram enfraquecendo ou cedendo à
indiferenciação e ao ecletismo. E as fronteiras esbateram-se: livros que
pertencem à esfera da «alta cultura» (uma designação que hoje requer aspas) são
produzidos e editados como os livros que satisfazem o sector hegemónico da
cultura de entretenimento, numa época em que, na verdade, deixou de ser
possível estabelecer nítidas diferenças entre o gosto das elites e o gosto das
massas. 

António Guerreiro, «Os livros, entre dois
mundos», Páginas Inquietas
	


















MÁRIO MOURA&#38;nbsp; é blogger, conferencista,
crítico. É autor dos livros Design em
Tempos de Crise (Braço de Ferro), O design que o design não vê (Orfeu Negro) e A força da forma (Orfeu Negro). Escreve no blog Ressabiator e Unseen by design. É editor da revista Monumentânea&#38;nbsp;(Grandes Armazéns do Design) e Impossuível. A convite do curador
Miguel Wandschneider, deu uma série de seis conferências sobre livros na
Culturgest Lisboa. Em 2014, comissariou a exposição “O Resto da Revista” na
Biblioteca Piteira Santos, Amadora.&#38;nbsp; Em
2011, concluiu a sua tese de doutoramento onde desenvolveu metodologias
críticas para tratar a autoria no design. É professor auxiliar na Faculdade de
Belas Artes do Porto, onde lecciona história e crítica do Design, tipografia,
edição. &#38;nbsp;





SUSANA GAUDÊNCIO é artista.&#38;nbsp; Entende a produção artística como plataforma para
encontrar novas possibilidades de problematização da utopia, enquanto
dispositivo crítico do quotidiano, eminentemente político. Publicou, entre
outros, o livro Época de estranheza em frente ao mundo (2012, Dois Dias); Luz Perpétua (2014, Fundação EDP); Repertório: histórias e
estórias de cartazes (2016, publicação produzida no âmbito de “Your body is
my body. Coleção de Cartazes de Ernesto de Sousa”, Museu Coleção Berardo,
Lisboa). Comissariou a exposição “Viagens de livros. O livro de artista nos 25
anos da ESAD.CR” (MiMO, Leiria, 2015), e a exposição “Páginas Inquietas: sobre
documentos insubmissos” (Espaço Mira, Porto, 2016). É membro fundador do “Círculo de Leitoras
Peripatéticas”, com Sofia Gonçalves e Susana Pomba. Coordenou o Programa
Educativo da Trienal de Arquitectura de Lisboa e da Casa da Arquitectura em Matosinhos. É docente no Mestrado de Artes
Plásticas/ESAD, Caldas da Rainha.
	
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		<title>Bakakai</title>
				
		<link>https://doisdias.pt/Bakakai</link>

		<pubDate>Wed, 22 Dec 2021 14:44:29 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Dois Dias edições</dc:creator>

		<guid isPermaLink="true">https://doisdias.pt/Bakakai</guid>

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	Capa mole, offset, 195x125mm, 256 pp., 500 exemplares.

	Bakakai
Witold Gombrowitcz
texto: Witold Gombrowiczedição: Rui Almeida Paiva e Sofia Gonçalvestradução: Rui Almeida Paivadesign: Sofia Gonçalves



	︎ 
18€&#38;nbsp; &#38;nbsp; 
	






	





























	
Bakakai é uma colectânea de contos cuja
composição abrange um razoável período da vida literária do
autor. Agrupados pela ordem cronológica invertida, os primeiros
contos deste livro são os mais recentes, e o último constitui a primeira obra
literária de Gombrowicz.



Nos dez contos deste livro, encontramos o
talento de Gombrowicz para despertar – normalmente a partir de um pequeno
incidente ou uma pequena anomalia que surge inesperadamente
no quotidiano de um personagem – a presença concreta
de um mistério.&#38;nbsp;Numa prosa hábil, mordaz,&#38;nbsp;hilariante
e impiedosa, o autor expõe a tensão (levada ao limite do
suportável)&#38;nbsp;dos seus assuntos de eleição: a obsessão irracional,
a identidade, a forma, a máscara aristocrática, a (i)maturidade e a juventude.
«Com a história a acelerar, ameaçadora,
as populações aferram-se a valores identitários obsoletos ou artificiais, mas
Gombrowicz intui na vertigem do seu tempo a volatilidade juvenil. A
imaturidade, já se sabe, serve para conotar os adultos que se comportam como
crianças e as crianças armadas em adultas. Atributo de tudo o que é instável,
transitivo, reactivo, incoerente, volátil, inadaptado, malformado ou informe.
Mas a imaturidade, na obra ficional de Gombrowicz, descreve também o abismo que
separa identidade e comportamento.»
Rui Catalão, «Comédia do Inferno», Público&#38;nbsp;(14.08.2020)

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    Que Inferno! – resmungou o Comandante. – Olhe, por exemplo, estes mastros. Mantendo-se firmes todo o tempo,
estupidamente. É uma estupidez. E eu também... mantenho-me em pé,
estupidamente. Ambos em pé, eu e o meu copo. Diga você, o que se pode fazer com
o copo? Parti-lo, não vejo outra possibilidade? Pois bem, foi o que fiz ontem à
noite. De manhã à noite, nada acontece a bordo desta porcaria de barco. Quando
olho para este corrimão – e deu-lhe um murro – e vejo que reluz sempre do mesmo
modo, pois bem, enquanto o olho, sinto que estou prestes a enlouquecer – e
começou a lamentar-se baixinho, num tom magoado, dizendo-me que tudo era
estúpido, realmente estúpido. – Tudo deve reluzir, cada coisa deve estar no seu
lugar, os meus marinheiros não fazem outra coisa senão lavar, esfregar, polir,
de manhã à noite. Como o senhor sabe, a bordo de um navio é obrigatória uma
limpeza absoluta, diria até exagerada. E porquê, diabos, porquê?
Witold Gombrowicz, «Acontecimentos a bordo da Goleta Banbury», Bakakai.







	


















WITOLD GOMBROWICZ nasce no sul da Polónia, em 1904. Enquanto romancista, publicou os
seguintes títulos: Ferdydurke, Cosmos, Pornografia e Transatlântico. Para
teatro, escreve duas peças: Ivone, Princesa do
Borgonha e&#38;nbsp;O Casamento. Diários, o seu último livro, torna-se, nas palavras do autor, no seu «animal de
estimação» (acompanhando-o,&#38;nbsp;nos últimos dezasseis anos de
vida, para todo o lado), onde regista, ao longo de mais de
setecentas páginas, uma longa e intensa conversa consigo próprio. Morre no sul de França, em 1969.







	
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