Capa mole,
offset, 100 pp.


A ficção como cesta:
uma teoria e outros textos


Ursula K. Le Guin

textos: Ursula K. Le Guin
desenhos: Dayana Lucas
tradução e design: Sofia Gonçalves
edição e revisão: Rui Almeida Paiva



A ficção como cesta: uma teoria e outros textos é uma colecção de quatro ensaios de Ursula K. Le Guin, apresentados por ordem cronológica, que tal como nos diz a autora na nota introdutória de Dancing at the Edge of the World (onde encontramos três dos quatro textos agora traduzidos para português), pode «parecer um arranjo simplista, mas oferece uma biografia mental, um registo de respostas a climas éticos e políticos, ao efeito transformador de certas ideias literárias e às mudanças que ocorrem numa mente». Socorremo-nos mais uma vez dos argumentos de Le Guin e do seu «Guia Ursulino», criado pela autora, para catalogar os seus próprios textos: estes ensaios intersectam pressupostos da literatura com o feminismo a partir de uma noção mais ampla de responsabilidade social. Inspirados por Le Guin e desafiando os limites do plano literário, colocámos estes quatro ensaios em diálogo franco e permanente com os desenhos de Dayana Lucas.

«A FICÇÃO COMO CESTA: UMA TEORIA» (1986) coloca-nos perante uma questão primordial: que História e estórias contaríamos se, em vez do osso, que depois é machado, que depois é espada, que depois é uma pistola, um canhão, uma metralhadora, que depois é uma bomba, considerássemos os objectos que contêm outras coisas a invenção mais importante da humanidade? A partir desta hipótese, Le Guin desenha uma teoria da ficção e apresenta um método narrativo que não vê as estórias como lineares – o modelo progressista do tecno-herói, que constrói as estórias como flechas em direcção a um alvo –, mas as reconhece em toda a sua complexidade. Nelas entram uma panóplia de ideias, de coisas, por vezes difíceis de organizar, tal como em qualquer saco ou contentor, e onde cada um de nós poderá procurar e encontrar sempre coisas diferentes.

Desde o Livro do Genesis que as mulheres são apresentadas como estando mais próximas da Natureza. Ursula K. Le Guin, no ensaio «MULHERES/LUGAR SELVAGEM» (1986), transforma esta suposta proximidade numa homologia heurística, enquanto circunscreve e dinamita as limitações inerentes aos discursos normativos. Dar voz aos silenciados, fazer do outro familiar, imaginar plantas e pássaros e rochedos como iguais, trazer os homens de novo para esse lugar selvagem são alguns dos honestos e desestabilizadores argumentos deste ensaio.

Le Guin diz-nos: «o problema com a imprensa é que nunca muda de ideias». «O GÉNERO É NECESSÁRIO? REDUX» (1976/1987) é um ensaio auto-crítico que questiona esta determinação. Ao considerar que toda a escrita e a sua consequente interpretação são um processo e não um ponto fixo, Le Guin revê, em simultâneo, The Left Hand of Darkness (um dos seus mais aclamados romances, onde constrói um mundo sem guerra, sem exploração e sem identidades definidas por noções de género) – na versão «Is gender necessary?», escrita em 1976 –, e a sua própria revisão crítica – na versão Redux, de 1987. As «mentes que não mudam são como amêijoas que não abrem», diz-nos Le Guin na nota introdutória. Ao ler o ensaio, assistimos a um dos exercícios mais corajosos de desmistificação. Afinal, o lugar do autor não é um posto fixo, uma condição inabalável. É, pelo contrário, um lugar de confronto que deve começar precisamente por se confrontar consigo mesmo.

«APRESENTO-ME» (1992) é um ensaio desafiador e sarcástico que examina estereótipos de género e de identidade. Originalmente escrito como uma performance, em 1992, o texto explora o que significa ser mulher (e por extensão, homem). Nele, a autora identifica-se como homem, um «homem de segunda», que chegou tarde à possibilidade de ser mulher, porque a mulher, diz-nos, foi uma invenção recente e tardia. Confessional, intenso em jogos de palavras e metáforas, e expondo preconceitos que nos tornam meras vítimas de convenções, Le Guin sublinha as incoerências e querelas entre identidade e reconhecimento social, perfeição física e envelhecimento, com tal sagacidade e simplicidade que, no final, é difícil não rir com o absurdo do estado das coisas.

︎︎︎︎︎︎


 
O romance é um tipo de história fundamentalmente não-heróico. Claro que o herói, com frequência, a tomou de assalto, sendo essa a sua natureza imperial e o seu impulso incontrolável: dominar e executar tudo, enquanto redige decretos severos e leis para controlar o seu impulso pungente de matar. Então o herói decretou, através dos seus porta-vozes – os Legisladores –, primeiro, que a forma adequada da narrativa é a da flecha ou a da lança, que começando aqui e indo directo para lá, ZÁS! acerta no seu alvo (que cai morto); segundo, que a preocupação central da narrativa, incluindo o romance, é o conflito; e terceiro, que a história não vale nada se ele não estiver presente.
Discordo de tudo isto. Chegaria ao ponto de dizer que a forma natural, apropriada e adequada do romance, pode ser a de um saco, de uma cesta. Um livro carrega palavras. As palavras guardam coisas. Transportam significados. Um romance é um frasco medicinal, que mantém as coisas numa relação particular e poderosa entre si e connosco.

(...) Por fim, é claro que o Herói não fica bem neste saco. Precisa de um palco, de um pedestal ou de um pináculo. Colocado num saco, parece um coelho, uma batata. É por isso que gosto de romances: em vez de heróis, encontramos neles pessoas.
Então, quando comecei a escrever romances de ficção científica, arrastava este incrível e pesado saco de coisas, o meu saco estava cheio de fracos e de desajeitados, e de minúsculos grãos de coisas mais pequenas que um grão de mostarda, e de redes intrincadamente tecidas que, quando laboriosamente desenredadas, parecem conter uma pedrinha azul, um cronómetro de funcionamento imperturbável que nos mostra as horas de outro mundo, e o crânio de um rato; cheio de começos sem fim, de iniciações, de perdas, de transformações e traduções, e com muito mais truques do que conflitos, muito menos triunfos do que armadilhas e ilusões; cheio de naves espaciais que acabam emperradas, missões que fracassam e de pessoas que não compreendem.

Ursula K. Le Guin, «A ficção como cesta: uma teoria»
URSULA KROEBER LE GUIN (1929-2018) foi uma autora americana particularmente reconhecida no campo da ficção científica ou da ficção especulativa, mas a sua extensa e premiada obra inclui 23 romances, 12 volumes de contos, 11 volumes de poesia, 13 livros infantis, 5 colecções de ensaios e crítica literária e 4 obras de tradução.
A antropologia, o taoísmo, o feminismo e a obra de Carl Jung influenciaram a escrita de Le Guin. Temas eminentemente políticos e sociais, como as questões de raça, género, sexualidade, envelhecimento, colonialismo e militarismo são frequentes na sua obra. Nela, encontramos ainda uma tendência para desenhar e explorar estruturas políticas alternativas.
A recepção crítica da obra de Le Guin continua a sublinhar o seu rigor e a sua disponibilidade para assumir riscos, com uma obra sólida que desafia os limites da ficção literária. Harold Bloom incluiu-a na sua lista de escritores clássicos americanos. A sua influência é reconhecida em autores como Salman Rushdie, Neil Gaiman e Iain Banks. A sua obra tem ainda potenciado um conjunto significativo de estudos críticos e académicos; no cinema, deu origem ao documentário Worlds of Ursula K. Le Guin, realizado por Arwen Curry, em 2018. Em 2021, a colecção Das Neue Alphabet (The New Alphabet), publicada pela Haus der Kulturen der Welt, dedica o seu sexto volume a uma análise crítica e à interpretação artística de «The Carrier Bag Theory of Fiction».

DAYANA LUCAS (Caracas, 1987) desenvolve uma pesquisa prática na área do desenho enquanto ritual e lugar de invocação pré-linguístico, com particular interesse na sua passagem para a escultura e o espaço. Trabalha também como designer na área da cultura, tendo colaborado com músicos, artistas plásticos e diversas instituições culturais portuguesas. Foi cofundadora da Oficina Arara, onde desenvolveu, até 2017, trabalho na área do design e da impressão com diversos meios manuais, e na organização de exposições, workshops e encontros com a comunidade artística do Porto. Colabora desde 2010 com o colectivo SOOPA e em 2019 criou o projeto ORINOCO no qual se dedica à criação de livros e outras edições de artista.





Tuesday Oct 5 2021