Mimeografia, 260x140mm, 48 pp.,
100 exemplares.

Câmara de Descompressão


Mattia Denisse

texto: Mattia Denisse
tradução: Marta Lança
imagem: João Maria Gusmão e Pedro Paiva
design: Flatland design

︎esgotado





Entramos nesta Câmara de Descompressão porque estivemos demasiado tempo à superfície. Nela, seremos apresentados a paradoxos que nos estampam à frente a nossa incapacidade de resolver problemas banais; a teorias matemáticas que ao organizar o mundo, complicam-no; a expedições que nos levam (sem sair do lugar) a sítios tão profundos e insondáveis como são certas memórias. Falta saber se ao sair desta Câmara de Descompressão, a nossa lucidez e sobriedade será alguma vez recuperada, mal tomemos de novo o pulso ao mundo que habita fora dela.

︎︎︎︎︎︎


O paradoxo não é mais do que uma tentativa de cortar, provisoriamente, o fio que liga uma ideia à lógica.
Para se adicionar à lista dos paradoxos, aqui fica o do barbeiro:
Um barbeiro propõe fazer a barba a todos os homens que não fazem a barba sozinhos e apenas a estes. Deverá o barbeiro fazer a barba a si próprio?
Repito: Um barbeiro propõe fazer a barba a todos os homens que não fazem a barba sozinhos e apenas a estes. Deverá o barbeiro fazer a barba a si próprio?
Resolvemos o problema ao afirmar que este barbeiro não pode existir (ou, brincando com as palavras, que não se trata de um homem), o que não surpreenderá ninguém, pois não existe verdadeiramente um paradoxo. Para ser exacto a demonstração precedente constitui a demonstração da não-existência de tal barbeiro. Podemos formular o paradoxo da seguinte maneira: o conjunto dos conjuntos que não pertencem a eles mesmos, pertence a si mesmo?

Mattia Denisse, Câmara de Descompressão.
MATTIA DENISSE (Blois, França, 1967) vive em Lisboa desde 1999. Estrangeiro ou extraterrestre, Mattia Denisse nunca se sentiu de nenhum lado. Por não ter paciência para esperar ser condenado por outros ao exílio, viajou. Pela Europa, África e Brasil, procurando algures o que poderia ter provavelmente achado se ficasse lá onde estava. Como “é preciso traficar alguma coisa enquanto se espera que a noite venha”, escolheu a arte ou a arte escolheu-o, como meio, para sobreviver. Aos 7 anos e meio, instala-se no meio da planície no campo vizinho com um cavalete e uma tela e pinta uma paisagem de montanha que forma uma baía, no horizonte, com o mar. Descobre, espantado, “que a arte é o lugar de todos os possíveis”. Depois da pintura como iniciação, explorará sobretudo a instalação como “espaço trópico”: projeto de reconstrução à escala planetária de uma “paisagem paradigmática”. O conjunto destas obras seria o ressurgir “de um paraíso” do qual se reencontrasse os fragmentos dispersos à superfície do globo. Em 2006, parte para Cabo Verde onde experimenta a insularidade. Nesta vida, onde o tédio é uma condição sine qua non do destino, escreve e desenha, que são, para ele, dois meios de passar, sem intermediários, de um pensamento a “qualquer coisa”. De regresso a Lisboa, Mattia Denisse dedicou-se quase exclusivamente ao desenho e à escrita, trabalho centrípeto em relação ao lado centrífugo das viagens.
Tuesday Oct 5 2021