Capa mole,
offset, 336 pp.


Geada


Thomas Bernhard

texto: Thomas Bernhard
posfácio: Marcos Foz
tradução: Bruno C. Duarte
edição e revisão: Rui Almeida Paiva e Sofia Gonçalves
design: Sofia Gonçalves




Relato de surpreendente robustez e de latente lirismo, Geada (1963) representou a revelação de Thomas Bernhard como um dos grandes escritores do século XX. Um perturbante e isolado vale austríaco, camuflado por uma geada permanente, e a ligação de um estudante de medicina a um pintor aí recolhido há vinte anos numa incessante degradação mental, são os bastidores que sustentam as observações e reflexões sobre a morte, a solidão, a velhice, a educação, a arte e a pobreza (da condição humana, de espírito), que vão percorrendo o romance, e que, aparentemente desconexas entre si, formam um sistema coerente que se confronta permanentemente com a nossa incapacidade de submeter o mundo a um processo de racionalização.

Em Geada, está ausente uma intenção deliberada de contar uma história. O estudante escuta o pintor, que vai expondo as suas reflexões e observações sobre as suas dores físicas e existenciais em constante diálogo com o que o rodeia. Quanto à história, tem o leitor de a ir concebendo por si, à medida que os pensamentos dos dois personagens nos vão chegando.

Este é o romance inaugural de uma voz particular e inconfundível da literatura. Porém, até chegar a ele, durante dez anos, Bernhard escreveu vários romances de centenas de páginas que nunca chegou a mostrar, por considerar o resultado final pouco interessante. No caso de Geada, «tive mesmo a sensação, quando terminei, de que isso era qualquer coisa que realmente ainda ninguém tinha feito, e também que ninguém imitaria». «Eu nunca pensei na forma, ela surgiu espontaneamente, segundo o que eu sou e escrevo. Nós temos, claro, modelos e histórias. Mas creio que, antes do romance Geada, no fundo não havia realmente nada do género. Foi a primeira vez que desse modo se escreveu» (Kurt Hofmann, Em Conversa com Thomas Bernhard, Assírio e Alvim, 2006, pp. 51, 29).

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O pintor Strauch pertence àquele tipo de pessoas que tornam líquido seja o que for. Aquilo em que tocam, derrete. O carácter, tudo o que há de mais sólido. «A mim não me podem ver, porque não se pode ver nada», disse ele, e: «Os princípios que põem milénios em marcha.» E ainda: «Qualquer actividade pressupõe uma outra antes dela, qualquer espécie uma outra, qualquer sentido um outro sentido, o sentido profundo, o sem-sentido, e vice-versa, e os dois em simultâneo.» Para ele, o pequeno-almoço é «cerimónia a mais. Mal pego na colher, salta à vista todo o ridículo da situação. Todo o absurdo. Só o cubo de açúcar já é um atentado à minha pessoa. O pão. O leite. Uma catástrofe. É assim que começa o dia com uma doçura traiçoeira.» 

Thomas Bernhard, Geada
THOMAS BERNHARD nasce a 9 de Fevereiro de 1931, em Heerlen, na Holanda. Morre na sua casa, em Gmunden, na Áustria, em 1989. Filho ilegítimo da austríaca Herta Bernhard, mulher solteira que fugira para a Holanda para dar à luz, e de um pai que nunca conheceu, passou a infância com a mãe e os avós maternos, em Viena. Nos seus primeiros anos de vida, o seu avô, que era escritor, esteve sempre presente na sua educação, tornando-se uma influência determinante. Esteve em dois internatos, um nacional-socialista e outro católico, e aprendeu música, tendo aulas de canto e violino. Mais tarde, estudou representação e direcção de actores. Entre 1952 e 1955, Bernhard colaborou com vários jornais. Em 1957, publica o seu mais conhecido livro de poesia, Na Terra e no Inferno, e, em 1963, Geada, o seu primeiro romance. Autor maior da segunda metade do século XX, sempre foi considerado um escritor polémico, mantendo uma relação de amor-ódio com a Áustria. O seu ressentimento é perceptível no seu testamento, no qual proíbe a encenação das suas peças teatrais
em território austríaco.

Ao longo da infância e início de juventude, com a sua excelente voz de barítono, chegou a pensar fazer carreira artística como cantor. Devido a uma doença pulmonar na juventude, foi forçado a abdicar dessa intenção. Contudo, estes estudos foram preponderantes na sua criação literária. As suas frases desenvolvem-se frequentemente numa espécie de espiral aparentemente caótica, com todas as suas repetições e variações, provocando, através de uma cadeia de pensamentos, uma reflexão estruturada e certeira. Não há, nas suas narrativas, uma acção, no sentido em que geralmente este conceito é utilizado. Há normalmente um narrador ou uma figura que pensa, que recorda. A reflexão e a linguagem são, desta feita, duas linhas que se vão entrelaçando, formando um único plano ao longo da sua obra literária.




Tuesday Oct 5 2021