Capa mole,
offset, 195x125mm, 408 pp.
As melhores intenções
Ingmar Bergman
textos: Ingmar Bergman
tradução: João Reis
edição, revisão: Rui Almeida Paiva, Sofia Gonçalves
design: Sofia Gonçalves
No final da sua vida, Ingmar Bergman (1918-2007), abandonando o cinema e o teatro, atira-se à produção literária com a mesma obsessão. Dando-se conta de que o tempo, o seu, se está a esgotar, dedica-se a uma escrita premente, vertiginosa, para dar continuidade à tarefa de preencher as lacunas do seu passado, esgravatar as suas repressões íntimas, e responder às questões que ao longo da vida o atormentaram, e que obstinadamente lhe foram escapando.
Com sessenta e nove anos lança o seu primeiro livro assumidamente literário (A Lanterna Mágica), que tem um excelente acolhimento do público e da crítica. Confiante, inicia, sem demoras, a sua derradeira trilogia, que a Dois Dias editará na íntegra: As melhores intenções, Filhos de domingo, Confissões privadas.
Neste primeiro volume, As melhores intenções (expressão que é usada ao longo destas páginas com um sarcasmo e um humor implacáveis), Bergman entrega-se à experiência irracional, que foge ao seu domínio, de ligar o seu fim ao seu início. Mas que início é este, para Bergman? No caso de As melhores intenções, o seu método livre de engenhos e amarras literárias, liberta-o para alcançar um passado longínquo apetecível, misterioso e enigmático – o aquém da sua própria existência física. Através destas páginas vai formando um túnel suficientemente comprido que o leve à superação das distâncias impossíveis, garantindo o acesso, através de um trabalho tão metódico quanto despreocupado com as provas factuais, aos momentos que antecedem o seu nascimento. Bastam-lhe, enquanto substância estimulante, as fotografias dos álbuns de família que herdou (e esparsos depoimentos e documentos), para entrar nas imagens, e ser-lhe possível, ao deambular por lá, a sua escrita fluir.
Bergman percorre um período temporal marcado com primor, através de dois traços – o momento em que os seus pais se conhecem, e os dias anteriores ao seu nascimento.
Através da sua prosa vigorosa, irónica e afiada, no decorrer de As melhores intenções entramos num ardil complexo de aparências, um baile de máscaras tão festivo quanto trágico, onde (num deslize acidental e aparentemente banal, ou num conflito explosivo), por momentos, a máscara cai. Sobretudo através de longos diálogos são-nos exibidos esses momentos fugazes, embora decisivos, em que as máscaras da mãe, do pai, e da sua avó materna escorregam.
Preencher vazios, habitando-os, talvez seja este o propósito lapidar desta criação literária de grande fôlego. Numa compulsão irrefreável, e através do jogo lúdico da ficção, as circunstâncias, as conversas privadas, os encontros e desencontros dos seus progenitores tornam-se, para Bergman, irrefutáveis – ao ponto de se erguer, desta empreitada, a matéria meticulosa e repleta de detalhes, de que é feita a vida.
Com sessenta e nove anos lança o seu primeiro livro assumidamente literário (A Lanterna Mágica), que tem um excelente acolhimento do público e da crítica. Confiante, inicia, sem demoras, a sua derradeira trilogia, que a Dois Dias editará na íntegra: As melhores intenções, Filhos de domingo, Confissões privadas.
Neste primeiro volume, As melhores intenções (expressão que é usada ao longo destas páginas com um sarcasmo e um humor implacáveis), Bergman entrega-se à experiência irracional, que foge ao seu domínio, de ligar o seu fim ao seu início. Mas que início é este, para Bergman? No caso de As melhores intenções, o seu método livre de engenhos e amarras literárias, liberta-o para alcançar um passado longínquo apetecível, misterioso e enigmático – o aquém da sua própria existência física. Através destas páginas vai formando um túnel suficientemente comprido que o leve à superação das distâncias impossíveis, garantindo o acesso, através de um trabalho tão metódico quanto despreocupado com as provas factuais, aos momentos que antecedem o seu nascimento. Bastam-lhe, enquanto substância estimulante, as fotografias dos álbuns de família que herdou (e esparsos depoimentos e documentos), para entrar nas imagens, e ser-lhe possível, ao deambular por lá, a sua escrita fluir.
Bergman percorre um período temporal marcado com primor, através de dois traços – o momento em que os seus pais se conhecem, e os dias anteriores ao seu nascimento.
Através da sua prosa vigorosa, irónica e afiada, no decorrer de As melhores intenções entramos num ardil complexo de aparências, um baile de máscaras tão festivo quanto trágico, onde (num deslize acidental e aparentemente banal, ou num conflito explosivo), por momentos, a máscara cai. Sobretudo através de longos diálogos são-nos exibidos esses momentos fugazes, embora decisivos, em que as máscaras da mãe, do pai, e da sua avó materna escorregam.
Preencher vazios, habitando-os, talvez seja este o propósito lapidar desta criação literária de grande fôlego. Numa compulsão irrefreável, e através do jogo lúdico da ficção, as circunstâncias, as conversas privadas, os encontros e desencontros dos seus progenitores tornam-se, para Bergman, irrefutáveis – ao ponto de se erguer, desta empreitada, a matéria meticulosa e repleta de detalhes, de que é feita a vida.
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Johan: Ai, cortaste-me o dedo mindinho.
Karin: Vejo tão mal. Não te podes virar um pouco?
Johan: Assim não vejo para ler.
Karin: Não percebo o que fazes às unhas dos pés.
Johan: Roo-as.
Karin: Devias ir ao calista.
Johan: Nem pensar. Não sou sodomita.
Karin: Tens aqui um calo; tenho de to tirar.
Johan: (enquanto lê o jornal) Se mo tirares, perco o equilíbrio. Já assim tenho dificuldade em andar.
Karin: Tenho uma paciência incrível. Incrível. A sério.
Johan: Não te faças de vítima, meu amor. Adoras mexer em ouvidos, fazer ligaduras, espremer borbulhas e pontos negros, e aparar os pelos do nariz a quem quer que seja. E, sobretudo, de cortar unhas dos pés. É a tua perversão.
Karin: Ao menos levanta um pouco o pé.
Johan: Gosto de te ver aos meus pés.
Karin: Estou aos teus pés para não andares por aí como um javardo.
Johan: Quem tem a mente limpa
não precisa de lavar os pés.
Karin: E tu tens?
Johan: Tenho o quê?
Ingmar Bergman, As melhores intenções
Karin: Vejo tão mal. Não te podes virar um pouco?
Johan: Assim não vejo para ler.
Karin: Não percebo o que fazes às unhas dos pés.
Johan: Roo-as.
Karin: Devias ir ao calista.
Johan: Nem pensar. Não sou sodomita.
Karin: Tens aqui um calo; tenho de to tirar.
Johan: (enquanto lê o jornal) Se mo tirares, perco o equilíbrio. Já assim tenho dificuldade em andar.
Karin: Tenho uma paciência incrível. Incrível. A sério.
Johan: Não te faças de vítima, meu amor. Adoras mexer em ouvidos, fazer ligaduras, espremer borbulhas e pontos negros, e aparar os pelos do nariz a quem quer que seja. E, sobretudo, de cortar unhas dos pés. É a tua perversão.
Karin: Ao menos levanta um pouco o pé.
Johan: Gosto de te ver aos meus pés.
Karin: Estou aos teus pés para não andares por aí como um javardo.
Johan: Quem tem a mente limpa
não precisa de lavar os pés.
Karin: E tu tens?
Johan: Tenho o quê?
Ingmar Bergman, As melhores intenções
ERNST INGMAR BERGMAN nasceu a 14 de julho de 1918 em Uppsala, na Suécia, filho de um pastor luterano rigoroso e de uma mãe dominadora. A sua educação baseada em noções rígidas de pecado, castigo e confissão moldou fortemente a sua visão de mundo. Encontrou refúgio na arte desde cedo, começando a sua carreira no teatro universitário antes de se dedicar ao cinema e à escrita.
Dirigiu mais de 170 produções teatrais e realizou mais de 60 filmes, destacando-se pelo seu estilo introspectivo e existencialista. A sua obra é profundamente marcada por temas como a mortalidade, a fé, a culpa e a complexidade das relações humanas.
Em 1987, publica um ensaio autobiográfico, Lanterna Mágica, seguido, em 1990, de uma análise dos seus filmes: Imagens. Escreve o romance-argumento As Melhores Intenções, um retrato da vida dos seus pais, cuja adaptação para televisão e cinema virá a ser concretizada pelo realizador dinamarquês Bille August. O filme obterá a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1992. Em 1993 publica Filhos de Domingo, segundo momento da trilogia. A obra centra-se num fim de semana onde o pequeno Pu, de 8 anos, presencia tensões familiares que abalam o seu mundo, servindo de mote para explorar a sua relação simultaneamente conflituosa e terna com o pai. O livro será adaptado para cinema pelo seu filho Daniel Bergman. Confissões Privadas, último livro da trilogia, será publicado em 1996, e adaptado para cinema por Liv Ulmann.
Dirigiu mais de 170 produções teatrais e realizou mais de 60 filmes, destacando-se pelo seu estilo introspectivo e existencialista. A sua obra é profundamente marcada por temas como a mortalidade, a fé, a culpa e a complexidade das relações humanas.
Em 1987, publica um ensaio autobiográfico, Lanterna Mágica, seguido, em 1990, de uma análise dos seus filmes: Imagens. Escreve o romance-argumento As Melhores Intenções, um retrato da vida dos seus pais, cuja adaptação para televisão e cinema virá a ser concretizada pelo realizador dinamarquês Bille August. O filme obterá a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1992. Em 1993 publica Filhos de Domingo, segundo momento da trilogia. A obra centra-se num fim de semana onde o pequeno Pu, de 8 anos, presencia tensões familiares que abalam o seu mundo, servindo de mote para explorar a sua relação simultaneamente conflituosa e terna com o pai. O livro será adaptado para cinema pelo seu filho Daniel Bergman. Confissões Privadas, último livro da trilogia, será publicado em 1996, e adaptado para cinema por Liv Ulmann.